O último dia do mundo
We shall live again
Ghost Dance, Patti Smith.
Assim começa O Aleph: ao deixar o velório de Beatriz Viterbo, Borges percebe uma sutil diferença na paisagem – um espaço publicitário anuncia um novo produto – e se entristece ao constatar que aquela é só a primeira de uma inexorável sequência de mudanças no mundo em que viveu sua amada. No futuro, tudo o que Beatriz conheceu terá desaparecido, tal como ela.
Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que em nenhum instante se rebaixou ao sentimentalismo ou ao medo, notei que os porta-cartazes de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me tocou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que aquela mudança era a primeira de uma série infinita
Pois bem. Se O Aleph se passasse no Porto de 2026 e não na Buenos Aires de 1945, a melancólica profecia do viúvo teria se cumprido antes da missa de sétimo dia. Na Invicta, como é conhecida a capital do norte português, tudo se transforma, nada permanece. Por aqui, a gentrificação é a regra do jogo. A todo instante, estabelecimentos centenários dão lugar às catedrais do turismo selvagem: saem as tascas, os cafés e os comércios locais, surgem as gigantes do fast-fashion, as lojas com as quinquilharias do cinto de utilidades do viajante (carregador, adaptador, cadeado, band-aid), os ramens, as barbearias de estética Peaky Blinders empinando Harley Davidson e, claro, o breve brunch hipster que quebra tão logo inaugura e é substituído por outro brunch hipster também condenado à falência onde se serve a mesmíssima especialidade do brunch anterior e do brunch seguinte: a efêmera avocado toast. Como bem disse Gilberto Gil: abacateiro, teu recolhimento é justamente o significado da palavra temporão.
Tomado por cardumes de japoneses de papete do Seninha besuntados em protetor solar encarando confusos o mapa de uma cidade que a eles se adapta e por nômades digitais paradoxalmente o dia inteiro fixados na mesa do café onde codam e zoomam (sic) sem pedir mais do que um mísero oat milk matcha latte, o Porto, tal qual a Paris de Baudelaire, muda mais rápido que o coração de um mortal.
Voltando ao texto de Borges, eu tenho uma opinião polêmica, ignorada pela crítica dita especializada. A meu ver, o tema central de O Aleph é o mesmo de Drácula: a ganância do mercado imobiliário. Para além da fugacidade publicitária denunciada no início do conto, lembremos do momento em que o artefato mágico é introduzido na trama: Carlos Argentino Daneri, o insuportável autointitulado poeta primo-irmão de Beatriz que segue vivendo na casa que dividia com a finada, telefona esbaforido para Borges dizendo que Zunino e Zungri, proprietários da casa e do café ao lado, irão solicitar a devolução do imóvel porque desejam expandir o negócio vizinho. Então Daneri confessa que
para terminar o poema, a casa era indispensável, pois num canto do porão havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contêm todos os outros pontos. – Está no porão da sala de jantar – explicou, com a dicção acelerada pela angústia. – É meu, é meu: eu o descobri quando criança, antes da idade escolar. A escada do porão é empinada, meus tios tinham me proibido de descer, mas alguém disse que havia um mundo no porão. Estava se referindo, só soube depois, a um baú, mas entendi que havia um mundo. Desci secretamente, rolei pela escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph.
E o clássico de Bram Stocker, o que tem a ver com isso? Ora, tanto no original quanto nas diversas adaptações da obra – incluindo-se aí os Nosferatu de Murnau, Herzog e Eggers, que traz Márcio Canuto no papel principal – o ainda desidratado vampiro precisa encontrar um servo que vá agilizando umas parada pra ele, já que o conde não tem forças para sair do sarcófago. Mas onde encontrarei a alma sebosa disposta a me ajudar? Pensa Orlok... e entra em contato com o dono de uma imobiliária, é óbvio. Sem pestanejar, o burguês oferece em sacrifício o funcionário que trabalha na escala 6x1 e a esposa do infeliz. Se Drácula tivesse sido escrito hoje, o protagonista entraria no Linkedin e com certeza elegeria por demiurgo Brian Chesky, C.E.O do Airbnb. Mas, perdão, eu divaguei, vamos seguir.
O Porto foi roubado de seus moradores e entregue de bandeja a Zuninos, Zungris e Orloks, (tu)barões do capitalismo tardio que transformaram a cidade em um parque de diversão de adultos medíocres: um crime cometido à luz do dia, diante de nossos olhos, sob o silêncio cúmplice de Kleber Mendonça Filho.
Mas nem tudo está perdido. O Porto não está morto. Alguns poucos enclaves resistem como podem à fome onívora da especulação, criando ilhas de realidade cercadas por um oceano de loucura. Um desses feudos é Paranhos, o bairro em que vivo. Moro em uma workingclassheroesca rua de oficinas automotivas batizada com o nome do padre que aqui fundou sua igreja. Vejo a igreja da minha janela; compro verduras na quitanda do Seu Fernando, que lusitanamente sustenta um lápis na orelha; almoço na tasca da Dona Lourdes, onde o carteiro e também cliente Abílio nos entrega nossas cartas em mãos, para não ter de ir à casa de cada um. Também fica nessa idílica Penny Lane ibérica a pré-histórica alfaiataria do Seu Tavares, onde mandei fazer o terno que vesti na defesa do meu doutorado. Ontem, passando em frente à loja, vi um aviso afixado na fachada. Juntos mas de fontes imiscíveis, a velha fachada e o novo aviso formavam uma polissêmica mensagem: Mundo dos fatos - últimos dias.
Para quem não sabe, em português de Portugal nosso fato se escreve facto. Para eles, fato, sem c, é roupa. Daí o nome na fachada de Seu Tavares. Já o aviso é autoexplicativo: com sua invertebrada voz e os olhos rasos de lágrimas, o alfaiate me informou que o senhorio catapultou o aluguel para a estratosfera, ninguém mais usa terno, meu filho, eu vou ter que fechar, agora vai ser um bubble tea. E assim, a foice da gentrificação ceifou o Karl Lagerfeld de Paranhos, levando consigo um dos nossos melhores. Mundo dos fatos - últimos dias.
A frase me trouxe muitas lembranças. Uma delas foi o título de um conto de Bolaño: Últimos entardeceres da Terra, publicado no livro Putas assassinas. O conto fala dos dias de férias que B (22) e seu pai (49) passaram em Acapulco. A relação entre B e seu pai não é de forma alguma conflituosa, mas é fria, distante, ainda que a concha desse silêncio proteja uma pérola de amor verdadeiro. B passa os dias a ler uma coletânea de poetas surrealistas franceses, obcecado pela figura de Gui Rosey, um autor da segunda divisão que sumiu sem deixar rastro durante a ascensão do nazismo. Ele também interage com outra hóspede de 60 anos que exerce um magnetismo sobre o rapaz. Enquanto isso, o pai de B – ex-boxeador, como o pai de Bolaño – se dedica a encher a cara e caçar puta. O pai fica amigo de uma espécie de animador de hóspede do hotel que é ex-saltador ornamental (típico personagem bolaniano!) e juntos eles vão a um cabaré. B segue a dupla a contragosto, talvez para proteger o pai do ex-saltador, em quem B não confia, talvez só para passar mais tempo com um pai com quem não consegue se comunicar, mesmo que em circunstâncias tão adversas. No cabaré, o pai se mete em uma mesa de carteado com o ex-saltador, B enche a cara e acaba recebendo um não solicitado sexo oral. B vomita, fica sóbrio, fica bêbado de novo até que percebe uma desinteligência se armar na mesa de poker. O pai ganhou tudo, mas o ex-saltador e seus amigos não querem deixar os parentes partirem com o dinheiro, contudo, pai e filho conseguem sair inteiros. No caminho de volta, finalmente, começam a brigar.
O conto revela uma das infinitas lâminas do canivete de Bolaño: sua habilidade de criar uma atmosfera de terror e pesadelo num cenário paradisíaco com sol a pino – em uma passagem ele diz ainda que o mar estivesse calmo, como um prato de sopa – faceta que o autor levaria ao paroxismo no póstumo Terceiro Reich. O clima geral é de paranoia. O ex-saltador é mesmo perigoso? A chapa de fato esquentou no poker ou a tequila deixou B ainda mais superprotetor com o pai? Se o risco era real, porque deixaram os dois sair em paz? Jamais saberemos. O mundo dos fatos nos chega filtrado pelo ingênuo, embriagado e edipiano olhar de B.
En ese momento B sabe que aquél es el último viaje que hará con su padre. Abre los ojos, cierra los ojos. Las putas lo miran con curiosidad.
O título e o enredo do conto – assim como a mensagem na fachada da alfaiataria – lembram o título e o enredo de um filme, menos tétrico e mais melancólico que a história de Bolaño: Aftersun, de Charlotte Wells. O que eu chorei vendo essa merda é brincadeira. Que eu me lembre, a jovem adulta Sophie revê as gravações que fez dos dias de férias passados há 20 anos com o pai, Calum, numa praia da Turquia. Olhando aquelas memórias pixeladas (caralho, tô chorando), Sophie quer fechar um quebra-cabeça, quer captar os sinais da depressão que levariam Calum a se suicidar logo depois daquelas férias. Pistas tão óbvias para mulher que vê o filme, a quem Sophie pune, mas invisíveis à criança que o gravou, a quem Sophie perdoa. Assim como no caso de B e seu pai, entre Sophie e Calum há sim amor, mas também uma porosa e invisível membrana que atrapalha a comunicação. Assim como nos Últimos entardeceres da Terra, em Aftersun o pai também não é uma autoridade castradora, mas uma espécie de irmão mais novo que precisa ser protegido, principalmente de si mesmo. Que eu me lembre, em uma noite alegre no hotel, pai e filha dançam Under pressure, sucesso de Bowie e Queen. Que eu me lembre, quando quer se conectar com o fantasma de Calum, Sophie fecha os olhos e se teletransporta para uma twilight zone com luzes estroboscópicas em que, já adulta, dança aquela música com um pai da sua idade, ambos embalados pelas vozes de Mercury e Bowie, que dizem: this is our last dance, this is our last dance, this is ourselves... Under pressure.
Outro bom filme que associa pais e filhos com dança e morte é Sirât, de Oliver Laxe. Eu fico hipnotizado pela sequência final, em que os personagens drogados dançam música eletrônica em um campo minado enquanto vão explodindo um a um. Em Energy Flash – A Journey Through rave music and dance culture, Simon Reynolds descreve assim o subgênero jungle:
In jungle, bass – hitherto dance music’s reliable pulse – became a plasma-like substance forever morphing and mutating. Like the jittery breakbeats, this new dangerbass put you on edge – it felt like trying to dance over a minefield
Em Agosto de 2024, pelas mesmas razões alegadas por Seu Tavares, a lendária boate Café au Lait anunciou que fecharia suas portas após 18 anos. Tal qual Calum, Sophie e os condenados de Sirât, eu fui lá para uma última dança sobre o campo minado. No dia seguinte, eu escrevi isso aqui:
Toda pista de dança tem um pouco de cemitério. Não há meio termo: só as alturas vertiginosas do prazer e as fossas abissais dos monstros, o brilho alienígena dos canhões de luz e o breu impenetrável da noite, sem nada entre eles. Tudo se move tão rápido que parece estar parado. A onipresença do som é o novo silêncio. O tempo repousa na própria duração e sentimos que ficaremos ali para sempre, que o mundo agora é aquilo, que aquela artificialidade é a nova natureza: o sol é néon, o ar é fumaça, a água é contaminada, as árvores são vinil e nós somos feitos de acrílico. Lá fora é que é um quartinho irrespirável e aqui dentro habitamos um universo infinito, um Aleph, um éden dirigido pelo Nicolas Winding Refn. Estamos no mesmo lugar, dançando a mesma música, bebendo a mesma bebida venenosa e proteica, juntos, mas nos sentimos radicalmente sozinhos, mas aí é que tá: por experimentarmos esse mesmo isolamento é que nos unimos, formamos um arquipélago, o corte que nos separa é o elo que nos conecta, a distância entre nós é o que nos aproxima. Ontem eu vi figuras ao mesmo tempo primitivas e pós-apocalípticas, olímpicas e decadentes, indestrutíveis e vulneráveis, eu vi óculos escuros saídos dos Jetsons, piercings bovinos, mullets equinos, têmporas raspadas e minúsculas franjas bladeruneescas, eu vi rostos junkie encimando corpos saudáveis, como se todos fossem uns minotauros pornô, eu vi um espelho e me vi nesse espelho e vi que eu era uma daquelas criaturas, um superhomem fumando uma pedra de Kriptonita. Pelo reflexo no espelho eu vi uma mão fantasma pousar sobre meu ombro, me protegendo e me ameaçando, me batizando e me estrangulando e, em libras, ela disse que eu não precisava mais ter medo, que tudo ia ficar bem, porque todos ali, todos, incluindo eu, todos nós estávamos mortos.
Não citemos o surrado verso de Dylan Thomas sequestrado pelo Batman de Nolan. Dancemos. Dancemos contra os vampiros que querem nos matar. Dancemos por Seu Tavares, por Beatriz Viterbo, por B, por seu pai, por Sophie, por Calum e por Sirât. Essa é a nossa última dança (Queen & Bowie), Esse é o fim do mundo e eu estou bem (R.E.M), Era é o fim do mundo, o fim do seu mundo. E estava tudo bem (Joca Terron), E Sabbath não podia fazer isso. Não podia morrer porra nenhuma. Como é que ia deixar tudo isso para trás? Como é que podia ir embora? Tudo o que ele odiava estava aqui (Philip Roth), Esta é a minha última transmissão a partir do planeta dos monstros (Roberto Bolaño),
Esse é o sol depois do sol.
Esse é o último entardecer da Terra.
Esse é o último dia do mundo dos fatos.






Eita! Que texto!!!