Avenida Kosovo
como uma tragédia familiar me levou aos Balcãs
Minha psicóloga saiu de férias. Foi aí que comecei a pensar nos Balcãs.
Agosto é o auge do verão europeu e as pessoas param de trabalhar, incluindo os psicólogos: todos e ao mesmo tempo. Entendo que os faxineiros da mente também merecem descanso, mas essa simultaneidade é uma ofensa ao contribuinte, principalmente àqueles como eu: dotados de uma consciência autoconsciente trancada dentro de um corpo que habita um espaço no tempo. Ao contrário dos caixas de supermercado, que revezam suas pausas para manter as operações funcionando, os psicólogos são medalhistas olímpicos dessa modalidade conhecida como o nada sincronizado: no verão, todos cruzam os braços de uma vez, mergulhando a Europa no uníssono silêncio do caos. É possível sentir a doidice se espalhando pelo continente: brigas no trânsito, pais assassinados, mães encoxadas, filhos perfurando os próprios olhos... Agosto é o purge da razão, a Lisístrata do bom senso. O sol que se levanta e eclipsa o juízo marca o início da iluminada noite da loucura.
Dentro da minha cabeça há um eterno aniversário do Guanabara. Desde que minha corporativista lacaniana viajou com todos os seus colegas de profissão, eu 1) fiz duas tatuagens, 2) raspei o cabelo, 3) comprei o ingresso para o show de uma banda norueguesa de black metal satânico... NA SUÉCIA. Como e com que dinheiro chegarei à cidade que dá nome à síndrome que me liga a essa grevista do espírito? Não sabemos.
No auge da crise de abstinência, chega um email hopando que me finda well: um amigo professor da Universidade de Portsmouth pede parecer para um artigo. Posso, claro que sim!, digito, com a pálpebra trêmula. Abro o arquivo: Echoes of Dissent: Bob Dylan’s Protest Songs and Their Influence on the Kosovo Rock Scene During 1980-1999. Tá de sacanagem. Essa semana não, por favor. Eram eles de novo: os Balcãs, esse tema que me persegue desde minha fortalezense infância, muito antes de eu literalmente me tornar doutor no assunto e dedicar minha carreira a ele.
A importância dos Balcãs para o mundo tal qual o conhecemos é tão grande quanto subestimada. Do assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand até o cerco genocida, pode-se dizer que o século XX começou e terminou em Sarajevo. Foi lá, em plena guerra, que Susan Sontag dirigiu Esperando Godot, todo encenado por atores locais morrendo de fome. É o J’accuse do nosso tempo: depois do espetáculo entre os escombros, todos os olhos se voltaram para o que estava acontecendo na região. Ali perto, em Belgrado, surgiu uma das maiores revoluções artísticas dessa quadra histórica: as performances de Marina Abramovic. Walk Through Walls, seu livro de memórias, me surpreendeu por diferentes motivos. Primeiro, pela narração fácil, quase infantil: vindo de uma artista tão vanguardista, transgressora e, digamos, não-verbal, eu esperava uma escrita afetada, hermética, não aquela contação de histórias fluída e cristalina. Segundo, pela natureza igualmente elementar e instintiva do seu processo criativo: não há nada de cerebral ou reflexivo. Ao invés de se basear em um longo discurso e ser precedido por uma pesquisa, cada trabalho é só a materialização de uma ideia-força muito básica, que a artista teve, pôs em prática e não tem mais nada a acrescentar sobre a questão. Terceiro, pelo simplismo, a ingenuidade e a cegueira de Abramovic acerca de sua posição de poder em relação a alguns temas – e até pessoas – que retrata em suas obras: dos monges do Tibet até os indígenas da Amazônia, todas as culturas que não a da artista são tratadas como um indiferenciado e monolítico lado de lá, um outro. Ela ao mesmo tempo estimula e controla a diferença: há um interesse pelos vários, imiscíveis e idiossincráticos costumes do mundo, mas toda essa cornucópia é enquadrada dentro de uma única moldura. No universo criado por suas performances, há muitas singularidades, no plural, mas só uma pluralidade, no singular. Essa conveniente simplicidade também aparece quando Abramovic fala dos acontecimentos políticos do seu país e do envolvimento da sua família neles: homem forte do governo Tito, o pai da artista é retratado como um herói viciado em fazer o certo que rompeu com o regime depois de descobrir coisas malvadas. Aham, tá bom. Mas nada disso tira o mérito seja do livro – pelo contrário, torna-o mais curioso – seja de Marina Abramovic, que é uma titã.
Enfim, eu divaguei. Retomando o que estava dizendo, os Balcãs entraram na minha vida ainda na infância, antes de eu conhecer Susan Sontag, Marina Abramovic e escrever uma tese de doutorado sobre o assunto. Fui uma criança dos anos 1990, época em que os Balcãs dominavam a televisão. Do cerco de Sarajevo até a invasão do Kosovo, só se falava nisso. Claro, em 1994 teve o Tetra, o Plano Real, as mortes de Ayrton Senna e Kurt Cobain, mas, de resto, ligar a TV era se deparar com prédios brutalistas em chamas e tanques deslizando por aquelas avenidas monumentais. A casa em que nasci, cresci e onde meus pais até hoje moram fica na beira de uma avenida que vivia esburacada. Quando chovia, a paisagem se tornava lunar: as crateras enormes e profundas eram preenchidas por um líquido prateado, espeço. Era bonita, a cena. Nessa não terapeutizada primeira semana de agosto, eu e minha prima estávamos recordando as férias de 1998, quando ela veio nos visitar. Ela perguntou se eu lembrava dessa avenida intransitável. Claro que me lembro, Julia. Mas tu lembra como tu a chamava, Pedro?. Não, como?
- De Kosovo. Tu tinha 8 anos.
No ano seguinte, uma tragédia familiar marcaria os Balcãs a ferro e fogo na minha alma. Em 1999, a Guerra do Kosovo avançava. Os mísseis que a OTAN despejava em Pristina abriam buracos na avenida de Fortaleza onde eu morava. Naquele dia, meu pai estava no seu escritório de arquitetura, construído nos fundos da nossa casa, esperando a primeira reunião com um novo cliente. A campainha tocou, meu pai abriu a porta, e a primeira frase que o cliente soltou foi:
- Caralho, tu parece o Slobodan Milosevic.
Pronto. Foi o suficiente. Naquele momento, algo se quebrou dentro do meu pai. O tecido psíquico do velho se rasgou, abrindo um furo por onde saíram os recém-despertos monstros do seu inconsciente. Meu inofensivo e carinhoso pai, uma alma que habita os píncaros da sofisticação ética e estética, começou a questionar quem ele de fato era: e se a semelhança com o Milosevic não fosse apenas física? E se o pai zeloso, o marido devoto, o arquiteto premiado, fosse apenas a casca sob a qual se esconderia o genocida eugênico que, admito, era a cara dele?
Amor, você não é o Slobodan Milosevic, você é o Ricardo Muratori, meu marido, pai do Pedro. Minha mãe repetia em lágrimas, sacudindo os ombros do Mura. Eu, com a minha limitadíssima erudição de criança de 9 anos de idade, contava a meu pai o drama de Harry Potter: depois de noites sofrendo por saber que só não foi para a Sonserina porque pediu isso ao Chapéu Seletor, Harry ouve do Chapéu que sim, sua alma era Sonserina e ele só não foi para essa casa porque pediu, mas aí é que tá! A recusa de nossa essência perversa é uma parte de nós tão importante quanto essa própria essência perversa: nós somos esse mal e também a negação desse mal. O importante não é o que a vida fez de você, mas o que você fez com o que a vida fez de você, pai! É isso o que a autora do livro nos ensinou: nada no mundo pode determinar quem você realmente é, só você mesmo... e a anatomia da sua genitália, ela acrescentaria anos depois. Mas nenhum anzol pescava meu pai para fora das turvas águas do pesadelo. Com a cabeça afundada entre as mãos, o pobre remoía a mesma wolverinesca pergunta: serei eu um homem ou um animal? Às vezes seus olhos esbugalhados e injetados de sangue me miravam e, babando de febre, ele gritava:
- Fuja! Fuja antes que eu atinja minha forma final!
O feitiço só se quebraria 15 anos depois, durante a copa do mundo de 2014. Uma sombra do que havia sido meu pai, mais uma vez, esperava a primeira reunião com um novo cliente. A campainha tocou, o cindido arquiteto abriu a porta, e o cliente sentenciou:
- Caralho, tu parece o técnico da Holanda.
Tal qual a Máquina do Mundo de Drummond, Ricardo “abriu-se em calma pura”. Holanda! Terra do mesmo tribunal de Haia que condenara Milosevic. Meu pai não era e nem parecia um criminoso de guerra, mas um pacífico e laureado técnico de futebol. São muitos os feitos do holandês, mas meu pai se interessava por algo que seu novo sósia nunca fizera: um genocídio, esse lustroso trofeu que brilhava por sua ausência. Diante da reação do meu pai, o redentor cliente fugiu com medo e nunca mais voltou. Os vizinhos saíram à rua para ver a cena. Ninguém entendeu nada, só eu e minha mãe: nós sabíamos que meu pai não estava louco, mas curado, liberto... e lá ficamos, de mãos dadas, aos prantos, vendo meu pai, completamente nu, correr pela esburacada avenida a gritar:
- Eu sou o Van Gaal! Eu sou o Van Gaal!
Depois do colapso do meu pai, tive certeza de que os Balcãs me acompanhariam para sempre. Fiz graduação, mestrado e doutorado em Sociologia, todos devotados à antiga Iugoslávia. A vida acadêmica me tirou da casa-escritório de arquitetura da Avenida Kosovo: a graduação e o mestrado fiz na Universidade de Brasília e o doutorado, na Universidade do Porto, em Portugal, onde vivo até hoje. Nas férias, eu sempre volto às minhas crateras natais, onde meus pais seguem morando e trabalhando. A transição de Milosevic para Van Gaal, inclusive, aconteceu em uma dessas visitas.
O fato é que eu virei um especialista no assunto, um balcólogo, por assim dizer. Pedidos de parecer em artigos sobre o tema – como o que desencadeou esse texto – e convites para palestras nos próprios Balcãs se tornaram frequentes. Os que me veem aqui falando de forma livre sobre áreas que não compreendo ignoram o fato de que realmente sei algumas coisas: só não gosto de falar sobre elas. Se quer uma análise sóbria e embasada sobre um tópico que domino: pague. Eu gosto é de patinar sobre o lago de gelo fino do desconhecido enquanto esbravejo frases generalistas, peremptórias e completamente erradas. Falar sobre o que não sabemos é tão bom quanto beber de dia assistindo a uma partida de curling na televisão de um quarto de hotel. Ficamos maravilhados e entretidos, mesmo não entendendo nada. Mesmo não: porque não entendemos nada. Os Balcãs são essa matéria sobre a qual não gosto de falar porque estou profissionalmente habilitado a fazê-lo. Para mim, é só um trabalho. Fora do âmbito acadêmico, esse conhecimento só me foi útil uma única vez, quando uma garota do Bumble de quem até então eu só conhecia o nome e uma foto da cara disse que sairia comigo caso eu adivinhasse de onde ela vinha. Senti uma vibe meio otomana e resolvi arriscar. Ela não teve a menor chance.
De modo que, em qualquer outra circunstância, avaliar um artigo sobre a influência de Bob Dylan no rock kosovar seria algo normal, só mais um dia na minha vida de balcólogo. Entretanto, fazer isso durante as férias da minha psicóloga e às vésperas do dia dos pais abriu um verdadeiro container de Pandora. Analisei o artigo e o chumbei. Cada frase que eu lia me tirava 1 de life. Perdão autor anônimo do Kosovo, mas seu texto me chegou numa semana péssima e, se serve de consolo, o texto estava tão bom quanto a semana.
Enviei o parecer esgotado, necessitando urgentemente de uma sessão de análise. A abstinência era tão grande que, deitado em posição fetal no piso do quarto, eu ouvia uma voz feminina repetir chavões psicológicos do tipo e como você se sentiu em relação a isso? ou acho que a gente pode ficar nesse ponto. Enlouqueci, eu dizia para mim, num misto de resignação e alívio. Mas eu estava enganado! De tão obcecado pelos Balcãs, pelo parecer e pelas memórias do colapso do meu pai eu esqueci que simplesmente moro com uma psicóloga, uma psicóloga que, inclusive, faz seus atendimentos virtuais na nossa casa. A voz não era uma alucinação. Como pude ser tão idiota? O mapa do labirinto estava escondido dentro dele: eu precisava entrar para conseguir sair.
Desde que nasci, habitei centauros: lares que eram metade casa, metade comércio. No passado, morei na casa-escritório de arquitetura da Avenida Kosovo. Hoje vivo no apartamento-clínica da Millena. Millena é uma psicóloga TCC piauiense que conheci no Bumble há pouco mais de dois anos. Na época, eu morava sozinho e não conhecia ninguém, mas estava disposto a mudar isso. Usava o Bumble não em busca de sexo e/ou amor, mas para ter alguma interação, treinar minhas fossilizadas habilidades sociais. Eu já não sabia mais conversar. Por exemplo:
Foi nesse contexto em que conheci a Millena. Quando nossos olhos se cruzaram, soubemos que jamais teríamos uma relação romântica, mas algo melhor do que isso. Nós não temos nada a ver: Millena é um gêiser de amor e otimismo que brota da crosta terrestre com uma força avassaladora, eu sou um buraco de míssil aberto numa avenida balcânica. Por isso, damo-nos tão bem. Saímos uma, duas, três vezes, então, eu a chamei para morar comigo e ela disse sim.
A chegada da Millena em minha casa, que agora também seria dela, assinalava uma virada de página na minha história: eu deliberadamente havia escolhido a vida, o humano, o convívio, em detrimento da morte, do inorgânico, do silêncio. Essa passagem seria marcada por um ato simbólico definitivo: desmontar meu escritório para que ali nascesse o quarto da Millena. Meu escritório era a minha caverna. Transformar aquela fortaleza protegida por prateleiras de livros sobre os Balcãs no reparador quarto-clínica da Millena ilustrava minha escolha de trocar o solipsismo pela comunhão. Assim fizemos: doei minha mesa e minha cadeira, esvaziei minhas gavetas, desfiz-me de vários livros e transferi os poucos sobreviventes para o meu próprio quarto. Millena comprou seus móveis e, juntos, nós mesmos fomos montando aquela mobília, escrevendo esse capítulo mais feliz de nossas respectivas vidas: fizemos a cama, o guarda roupa, a penteadeira, até que, enfim, a transição do soturno escritório para o quarto estava completa. Quando olhamos para aquele cômodo renascido, choramos. A noite virou dia. Eu estava feliz por ela e orgulhoso de mim mesmo.
Volta para o presente: ouvindo o canto de sereia de Millena no outro lado do corredor, fui rastejando até seu quarto-clínica, como se em sua porta houvesse o aviso em caso de emergência, quebre o vidro. Bati, Millena abriu, expliquei minha situação e, em sua infinita bondade, Millena me sugeriu:
- Pra compensar a falta de terapia, porque você não escreve um texto? Mistura elementos de ficção e realidade, vai te fazer bem. Lembra que você me falou daquelas dicas que aprendeu na oficina do Antônio Xerxenesky? Faz isso! Inventa que você é especialista em um tema aleatório sobre o qual você não sabe nada, mas mantem alguns traços da sua biografia mesmo. Mistura personagens que existem com outros que não existem. Pode me colocar na história, eu autorizo. A gente mora junto e você nunca fala de mim! Tenho certeza que seus leitores vão adorar. A galera tá com um cu cheio d’água por causa da bosta daquele livro da Tati Bernardi, fala sério. Vai lá, ensina pra eles como faz autoficção, depois me mostra!
Era isso! Voltei para o meu quarto aos pulos, sentei no computador e digitei: Minha psicóloga saiu de férias. Foi aí que comecei a pensar nos Balcãs. Passei os dias seguintes imerso na minha história absurda, fingindo ser alguém que não era, sem nem pensar na minha falta de terapia. Quando acabei o conto, disparei pelo corredor gritando Millena! Millena! Eu terminei, deixa eu ler pra você! A empolgação era tamanha que invadi o quarto da Millena sem bater na porta. Mas do lado de lá não encontrei o quarto da Millena, só o meu intacto escritório de sempre, solitário e vazio: como eu.
Minha psicóloga volta das férias amanhã.








